28 Abril 2005


12 Março 2004

Pedra Filosofal

Eles não sabem que o sonho

é uma constante da vida

tão concreta e definida

como outra coisa qualquer,

como esta pedra cinzenta

em que me sento e descanso,

como este ribeiro manso,

em serenos sobressaltos,

como estes pinheiros altos,

que em verde oiro se agitam,

como estas aves que gritam

em bebedeiras de azul.


Eles não sabem que o sonho

é vinho, é espuma, é fermento,

bichinho alacre e sedento,

de focinho pontiagudo,

que força através de tudo

num perpétuo movimento.


Eles não sabem que o sonho

é tela, é cor, é pincel,

base, fuste, capitel,

arco em ogiva, vitral,

pináculo de catedral,

contraponto, sinfonia,

máscara grega, magia,

que é retorta de alquimista,

mapa do mundo distante,

rosa dos ventos, Infante,

caravela quinhentista,

que é cabo da Boa Esperança,

ouro, canela, marfim,

florete de espadachim,

bastidor, paço de dança,

Colombina e Arlequim,

passarola voadora,

pára-raios, locomotiva,

barco de proa festiva,

alto-forno, geradora,

cisão de átomo, radar,

ultra-som, televisão,

desembarque em foguetão

na superfície lunar.


Eles não sabem, nem sonham,

que o sonho comanda a vida.

Que sempre que um homem sonha

o mundo pula e avança

como bola colorida

entre as mãos de uma criança.



António Gedeão



Não adormeças


Não adormeças: o vento ainda assobia no meu quarto
e a luz é fraca e treme e eu tenho medo
das sombras que desfilam pelas paredes como fantasmas
da casa e de tudo aquilo com que sonhes.

Não adormeças já. Diz-me outra vez do rio que palpitava
no coração da aldeia onde nasceste, da roupa que vinha
a cheirar a sonho e a musgo e ao trevo que nunca foi
de quatro folhas; e das ervas húmidas e chãs
com que em casa se cozinham perfumes que ainda hoje
te mordem os gestos e as palavras.

O meu corpo gela à míngua dos teus dedos, o sol vai
demorar-se a regressar. Há tempo para uma história
que eu não saiba e eu juro que, se não adormeceres,
serei tão leve que não hei-de pesar-te nunca na memória,
como na minha pesará para sempre a pedra do teu sono
se agora apenas me olhares de longe e adormeceres.


Maria do Rosário Pedreira
de A Casa e o Cheiro dos Livros

O meu reino por uma bolacha


Desço a avenida, com um saco de pão na mão, esquerda, que a direita afasta as gotas da chuva que cai compacta. Todos os carros, hoje, vão na mesma direcção, hoje a avenida é de sentido único. Penso: quem pode mudar o sentido do trânsito de uma avenida, sem avisar? Ainda é de manhã e o dia está escuro, como ao entardecer, as pessoas dirigem-se aos empregos, todos vão na mesma direcção. Como se também nos passeios existisse a lei do sentido único. Também eu sigo atrás dos outros, molhado, tentando afastar as gotas da chuva com a mão. Reparo melhor nos automóveis, todos eles deslocam-se cerca de cinco centímetros acima da estrada, não tocam no chão, não fazem barulho. Quando chegam a meio da avenida, viram todos para o lado direito, para baixo não há trânsito. As pessoas invadem a estrada, atravessam de um passeio ao outro, e a certa altura mantêm-se imóveis, param geladas como estátuas. Umas saltam alto no ar e ficam assim, sem cair. Outras deixam-se cair no chão, de braços, boca e olhos abertos. Há quem tire fotografias, fazendo parar o tempo. Penso: tenho de me esconder, não posso atravessar a estrada. Ao olhar para o lado vejo uma loja, a única aberta, e entro. Ao passar pela porta reparo no nome "O meu reino por uma bolacha". Lojas assim só existem nos sonhos, penso.

10 Março 2004

Aqui tenho sonhos que não conto a ninguém


O verão deixa-me os olhos mais lentos sobre os livros.
As tardes vão-se repetindo no terraço, onde as palavras
são pequenos lugares de memória. Estou divorciada dos
outros pelo tempo destas entrelinhas - longe de casa,
tenho sonhos que não conto a ninguém, viro devagar

a primeira página: em fevereiro, eles ainda faziam amor
à sexta-feira. De manhã, ela torrava pão e espremia
laranjas numa cozinha fria. Havia mais toalhas para lavar
ao domingo, cabelos curtos colados teimosamente ao espelho.
Às vezes, chovia e ambos liam o jornal, dentro do carro,
antes de se despedirem. As vezes, repartiam sofregamente
a infância, postais antigos, o silêncio - nada

aconteceu entretanto. Regresso, pois, à primeira linha,
à verdade que remexe entre as minhas mãos. Talvez os olhos
estivessem apenas desatentos sobre o livro; talvez as histórias
se repitam mesmo, como as tardes passadas no terraço, longe
de casa. Aqui tenho sonhos que não conto a ninguém.


A ideia para este blog surgiu deste poema de Maria do Rosário Pedreira, publicado na sua obra de estreia A Casa e o Cheiro dos Livros, Quetzal Editores, 1996 (re-edição da Editora Gótica em 2002).
Todos nós temos sonhos que não contamos, histórias que preferimos manter escondidas no escuro da noite (ou que se perdem no acordar apressado), desejos secretos, mentiras desejadas. Todo o poeta é fingidor. Nós não somos nem um nem outro, apenas gostamos de sonhar, acordados, que o mundo não pode ser só isto. Não é só isto.
Aqui temos sonhos que não contamos a ninguém e por isso mesmo os escrevemos, para que não se percam, no lento amanhecer dos dias.

Nuno, Inês, Hugo e Catarina.